O que o outro não quer ouvir?
- Telma Diniz

- 24 de abr. de 2024
- 3 min de leitura
Engraçado, outro dia eu pensei: Fulana está de mal de mim?
Dei gargalhadas desse meu pensamento. Já confesso que rir é muito bom. Alguém ficar de mal de mim é uma vivência que tínhamos quando éramos crianças. De certo não fiz aquilo que ela queria que eu fizesse (risos).
O bebê nasce e será humanizado, pelo menos é o que todos esperam.
Como assim?
É isso mesmo. Nascemos bichos humanos e cabe a quem cuida de nós nos humanizar.
Esse empenho de humanizar é feito pelos cuidados com o bebê, a higiene, o alimentar de comida, alimentar de palavras, alimentar de afetos, e nos primeiros anos de vida o toque pele com pele do vínculo afetivo faz humanizar esse bicho humano que nasceu e foi acolhido na menor celular social: a família. Sem esquecermos que instituições de acolhimento para adoção também realizam essa humanização.
Há na história da humanidade casos de bebês e crianças que foram criados por animais como macacos e lobos ( Leia AQUI ). Criados por outros animais, ficaram sem a possibilidade de desenvolvimento pleno de suas capacidades cognitivas e sociais, por causa de não serem adotados por seres humanos que os estimulassem a comunicação verbal e não-verbal da linguagem social humana.
Bem, na verdade é a sociedade humana quem nos adota. Podemos nascer em uma família consanguínea que cuide e mesmo assim seremos sempre adotados por aqueles parentes, porque precisamos de muito mais que instintos e consanguinidade para sermos humanizados.
E lembrando o início desse texto que alguém estava de mal de mim (risos), os humanos criam enormes expectativas sobre o presente e o futuro.
Vivemos amparados por leis civilizatórias e muitas vezes isso não dá conta do que somos.
O exemplo são os presídios cheios de humanos que não cumpriram as leis e realizaram crimes. E conseguirão ser ressocializados?
Existem aqueles saberes que não são contemplados pela Constituição Federal; são discursos que continuam a se repetirem em sociedade e não são ajuizados pelas leis.
Vou destacar um hoje: o discurso do coitado!
Como é espantoso a repetição desse discurso em todos os lugares.
Pessoas há que confundem muito facilmente o discurso do coitado com o ato de compaixão.
O que é compaixão? É a capacidade afetivo-cognitiva de perceber o outro em sofrimento; querer se solidarizar com outro ser no planeta; um outro humano, ou outro animal, e querer ajudar de alguma forma para que minimize o sofrimento alheio.
Já o discurso do coitado fala de uma impossibilidade de compaixão; de tornar o outro um ser inferior a mim.
Coitada de Beltrana que não consegue emagrecer!
Coitado de Fulana que trabalha tanto, estuda tanto, e não consegue melhorar de vida!
Coitado de Fulano que usa cadeira de rodas para viver!
Coitado de Ciclano, que mesmo rico, sofre tanto!
Perceba que em cada fala dessas há um grau de desdém muito disfarçado sobre a vida do outro.
Dei quatro exemplos muito corriqueiros, mas perceba a construção intrincada desses pensamentos.
No funcionamento psíquico, ninguém - perceba - ninguém é superior ou inferior aos outros por suas condições existenciais.
Então por que as pessoas falam isso?
Falam por que não ouvem o que falam, simples assim. Bem como sonham, e não sabem o que aquilo que sonham quer dizer a elas mesmas.
O discurso do coitado é uma armadilha social! Feito uma gangorra que fica sobe e desce, ora superior e ora inferior, e que só falam de si mesmas e seus afetos não trabalhados.
Essa gangorra interna entre a arrogante posição de achar-se superior ao outro e a inferior baixa auto-estima que sente ao se comparar com outro ser humano.
Lembre-se que o ato de comparação com o outro é nefasto em nossas vidas sociais, mas principalmente deletério internamente. Sempre traz consequências de adoecimento mental.
Existe espaço suficiente no universo cultural para cada ser humano, ninguém é melhor ou pior que ninguém.
Precisamos é de todos, e cada um com a sua inestimável singularidade genuína e incomparável.
